sexta-feira, 7 de junho de 2013

Com a cabeça no céu


Lançamento do mais recente romance do José Eduardo Agualusa, «A Vida no Céu», quinta à noite, em Lisboa (livraria Ler Devagar). Apanhou-me no fecho da edição de uma das revistas da empresa, mas como os PDFs que eu tinha de ver estavam atrasados deu para passar por lá, ainda por cima sem grandes pressas. Comprei o livro à entrada e depois assisti a um canto à apresentação. Mais tarde, quando estava na fila para apanhar um autógrafo, da editora vieram-me dar um papelinho para escrever o meu nome e juntar ao livro; assim facilitava as coisas. Lembrei-me de que nos tempos da editora anterior dele a própria editora (a pessoa), quando eu estava a aproximar-me, tinha-se levantado da cadeira e tinha-me vindo perguntar o nome para apontar numa folha de papel onde já tinha uma série de nomes – dessa vez eu ia para dizer que achava que não era preciso quando o próprio Agualusa se levantou para me cumprimentar e isso acabou por fazê-la regressar à cadeira.
Bom, desta vez disse mesmo que não devia ser preciso. E recusei o papelinho. Continuei na fila, à espera, e a certa altura recebi uma mensagem no telemóvel a informar da situação em que estavam os PDFs. Quando acabei de lê-la, reparei que o projector da imagem do romance do Agualusa me apanhava a cabeça. Eu estava com a cabeça no céu, junto com os balões. Antes de guardar o telemóvel, tirei uma fotografia. Precisamente aquela ali de cima. E depois continuei a olhar para a minha cabeça no céu, era mesmo a minha, pois dava facilmente para notar o corte de cabelo com defeitos. Não pude foi deixar de estranhar que aparecesse a minha cabeça assim tão destacada, mas ao virar-me para trás percebi que isso tinha a ver com o facto de eu ser então a pessoa mais alta da fila. Não que eu me tivesse ido meter numa fila de anões para autógrafos (tal coisa talvez só no lançamento de um livro de Rosa Montero), nada disso, não dei nem com um que fosse. Mas eu era mesmo a pessoa mais alta. Tanto que a minha cabeça, ou antes, a sombra negra da minha cabeça, se destacava no céu da capa do livro onde apareciam os balões.
Estava a aproximar-me da mesa dos autógrafos, embora devagar. Atrás de mim, alguém queixou-se de que aquilo parecia uma repartição pública. E logo uma voz diferente falou da necessidade de meterem mais escritores na mesa a assinar. Ninguém se riu, por isso não deve ter tido graça. Entretanto, o casal à minha frente escrevia os nomes num dos papelinhos, tinham só um livro e o autógrafo era para os dois – o homem preocupava-se com o nome da mulher, que era estrangeiro e tinha de ficar escrito de forma legível para o autor perceber. Lembrei-me de que tinha dito um pouco antes que não precisava de papelinho. Conhecia o Agualusa dos tempos do «DN Jovem», há mais de vinte anos, ele já tinha apresentado um romance meu, eu já tinha num leilão de livros com ele e mais autores presentes vendido um exemplar de «Um Estranho em Goa» por 25 contos (quase mesmo a passarmos para o euro), e ele uma vez, provavelmente por falta de inspiração, tinha-me metido numa crónica. Não ia assim sem mais nem menos esquecer-se do meu nome. Ou de mim. Ainda por cima numa altura em que quase coincidíamos na mesma editora, ele a entrar com este novo romance e eu provavelmente já fora depois do meu último livro. Mas e se se esquecesse? Foi o que pensei. Sempre a olhar para a projecção do meu cabelo cortado com defeitos. E por isso acabei por tirar um dos cartões multibanco da carteira e juntei-o ao livro. Ele podia ver o meu nome no cartão, e em letra de forma, bem diferente dos gatafunhos que eu poderia escrever no papelinho. Quando nos cumprimentámos, ele ficou um bocado espantado ao ver-me com o cartão na mão. Mas não disse nada. Deve ter pensado que eu não estava bem e que não sabia ao certo o que fazia. Até porque depois de assinar o livro perguntou-me se estava tudo bem comigo. Já não me lembro do que lhe respondi.

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