domingo, 2 de junho de 2013

Um bocadinho de uma história no Alentejo

A caminho de Évora, por uma estrada muito estreita que permite poupar alguns quilómetros ao carro, lembro-me sempre da cidade brasileira de Ouro Preto. É na descida para a aldeia de São Brissos, pouco depois de passar por uma anta transformada em capela e onde em cada visita sempre encontrei um bicho estranho, mistura de vespa comprida e aranha perigosa, dominando uma teia junto à portinhola fechada a sete chaves. Acho até que num pesadelo que uma vez tive com uma aranha gigante era esse ser a caminho de assustador que entrava a fazer de artista principal. O ser da capela-anta, com as suas cores, o amarelo e o preto, no pesadelo apenas imaginadas, pensadas depois de acordar, porque nos pesadelos o normal é aparecer-me tudo a preto e branco, como acontecia na televisão quando ainda por cá havia a ditadura.
Há já uns tempos que não vou ver a aranha. Acho que depois do pesadelo nunca mais fui. O normal é passar pela estrada a uns cinquenta metros e depois de uma curva acelerar pela descida até São Brissos, e aí aparece-me a imagem de Ouro Preto, embora ao mesmo tempo pense nas proporções tão diferentes de cada um dos lugares. É a igreja enorme a dominar as poucas casas junto ao cemitério, no meio de todo aquele campo, que me traz a lembrança de Ouro Preto. E os montes, que por ali enganam a planície que se avista olhando para a direita, para o lado de onde ao longe dá para adivinhar o casario altaneiro de Alcáçovas.
São Brissos fica pouco antes de um enorme eucaliptal, que imagino de cada vez que o atravesso como sendo o maior de todo o Alentejo, mesmo que isso possa não ser verdade. A estrada estreita corta-o ao meio, serpenteando por uns poucos quilómetros até uma aldeia bem maior do que São Brissos, a de Valverde, junto da qual existe um pólo da Universidade de Évora. As lombas colocadas propositadamente na rua principal fazem-me passar por lá a dez ou vinte à hora, com o motor do carro uma vez por outra a ameaçar ir-se abaixo. Talvez por isso tenha logo na primeira passagem reparado num guerreiro que conheço muito bem desde criança (…)

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