terça-feira, 3 de setembro de 2013

À noite, vigilante


Não sei por onde anda de dia, mas imagino que seja por entre as ervas e as flores mais frescas que consegue apanhar por aqui – onde a rega faça mais efeito, por exemplo. Mas à noite já se tornou um clássico. A pequena rela. Fica no alpendre do forno, de sentinela nem sei a quê, sempre em cima do mesmo interruptor. No escuro, quando vou com a mão esquerda para ligar as luzes, levado pelo hábito, sem me preocupar com um centímetro mais acima ou mais abaixo, por vezes toco-lhe. E aí é que me lembro dela, lembro-me de que à noite está sempre por lá, vigilante, sem uma empresa que lhe pague nem que seja o salário mínimo, sem uma administração pública que a integre num qualquer programa ocupacional do instituto que gere o desemprego o melhor e o mais alto que pode. Toco na rela e lembro-me: a rela, a rela sempre em cima do interruptor, à noite. E ela não salta de susto. Deve pensar que é uma pequena festa que lhe faço. Como depois de acender as luzes me vê fazer aos cães e aos gatos. De relance. Percebo que olha de relance. Está vigilante no seu pequeno espaço que mal dá para se aconchegar. Olha em frente. Não se distrai. Profissional. Cumprindo um dever que não sei qual é. Merecia mesmo estar numa empresa. Ou na administração pública. Talvez na administração pública. Talvez mais aí. Pela calma, sobretudo pela calma.

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