domingo, 15 de dezembro de 2013

Blue eyes


Uma ferida curada no hospital veterinário da Universidade de Évora, com a obrigação de usar um colar e de não se meter em aventuras pelo montado aqui à volta. Mas acabou por meter-se. O Punkinho (traduzindo, punk pequenino) escapou-se um domingo ao fim da tarde e voltou passados três dias já sem colar, com mais feridas e o olho esquerdo transformado nem consigo dizer bem em quê. Uma luta com uma gineta, foi o que me disseram no hospital da universidade, a julgar pelas marcas das unhas à volta do olho e também lá dentro. O facto de ter tido o colar tê-lo-á impedido de defender-se como estava habituado a fazer, como fazia o pai antes de morrer, como ainda hoje faz a mãe, como faz também a irmã. Uma médica pessimista disse que o mais certo seria ele perder o olho, mas uma colega optimista disse que talvez não. Tratamentos e mais tratamentos. Quase dois meses. Pingos e pomadas pelo olho esquerdo adentro. Umas infusões manhosas pelas goelas abaixo. Um dia atrás do outro. Alguns dos pingos de quatro em quatro horas. Em dias de ida a Lisboa eu ia deixá-lo ao hospital, para não se perder o ritmo do tratamento. Uma coisa de espantar, o hospital veterinário da universidade. Sempre uma médica e mais uns seis ou sete alunos a ajudarem, uns a parecerem mais adiantados do que outros a julgar pelas fardas diferentes. Uns, quer dizer, umas, porque é quase só alunas. Espera-nos por certo um país de veterinárias... E mais uma coisa, as aulas, o Punkinho chegava a ir a aulas, do «senhor professor», como eu ouvia dizer. Pediam-me e eu deixava. Por causa das patologias, era bom para as aulas práticas, segundo me explicaram. Um dia voltou de uma aula com o pelo da barriga rapado e todo envergonhado. Uns exames internos, para os alunos (quer dizer, as alunas) perceberem. Tudo isto me parecia sempre aquelas séries parvas norte-americanas da moda passadas em hospitais, só que de pessoas. Mas o olho salvou-se. O gato surpreendente voltou a surpreender. Antes tinha estado fora sete anos, até voltar num fim de tarde de Inverno, de pêlo quase preto. Não sei por que países ou continentes terá andado. Mas era ele. Reconheci-o logo. O Punkinho, o pequeno punk que de punk pouco tem mas ficou com o nome assim porque foi o que lhe calhou em sorte. Agora está preparado para novos problemas. Vê tão bem do olho esquerdo como do direito. O olho esquerdo continua tão bonito como o direito. Os olhos azuis, «blue eyes», como um tipo espanhol que estudou comigo na Alemanha e inacreditavelmente dominava o inglês costumava cantar por lá às raparigas, até quando era atendido por uma numa loja. O Punkinho vai de certeza voltar ao montado. Sem colar. E tem de se defender, nem que lhe apareça um javali.

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