Vivia bem no alto de um
dos sobreiros maiores, a um esvoaçar apenas
da rota do avião que ligava
o aeroporto de Faro ao de Orly,
uma vez por outra com
escala na Funcheira.
Olhava para dois cestos de cerejas. Eu.
Era eu que olhava. Tinha mesmo à minha frente a apanha do fim da tarde, depois
de subir a dez metros de altura (poderão os ramos das cerejeiras chegar aos dez
metros?), ou a oito, eventualmente. Cerejas e mais cerejas, e folhas e mais
folhas. Tudo à minha frente. E eu, sem perceber como nem por quê, a recordar os
lamentos dos piscos e dos melros, pouco antes, ao darem por mim a encher os
cestos. Os lamentos dos piscos, os dos melros e também os de umas quantas
arvelas e, se bem percebi, os de meia-dúzia de felosas. E os de um solitário
papa-figos francês. Teria entretanto adormecido? Eu… Estaria a dormir junto aos
cestos de cerejas? A sonhar? Em vez de ser a pensar…
O papa-figos parecia-me estanho naquele
grupo, ou melhor, naquele coro de lamentações, e nem era por ser francês. Mas
estava lá. E chegavam-me coisas sobre ele, que na falta de figos maduros costumava
empanturrar-se de cerejas, e até de croissants
de chocolate se de manhã eu perdesse de vista a
mesa da rua com o pequeno-almoço. Devia ser mesmo um sonho. Devia ser eu a
dormir e a sonhar junto dos cestos. Um sonho meu. E lá estava o papa-figos
francês doido por croissants de
chocolate e adepto do Saint Étienne… Ele que vivia bem no alto de um dos
sobreiros maiores, a um esvoaçar apenas da rota do avião que ligava o aeroporto
de Faro ao de Orly, uma vez por outra com escala na Funcheira. Aos domingos o
papa-figos costumava espreitar pelos vidros da janela da sala por causa da
Sport TV e dos resumos do championnat.
Eu tinha chegado a abrir a janela, mas ele nunca tinha entrado. Dentro do sonho
eu sabia disso, lembrava-me disso, muito bem até: ele nunca tinha entrado. Por
ser reservado, claro; e, tinha-me sempre parecido, por algum receio da minha
colecção de pequenos caretos, principalmente do extraordinário careto de
Podence, o meu preferido e também (não é para rimar) o mais aguerrido. O
papa-figos francês devia ver em cada careto um pequeno espantalho a raiar o
tecnológico, típico produto da revolução digital com uma pitada de tradição,
coisa que na serra dos dois dinossauros adormecidos, a de Monchique sobre os
algarves, não haveria de ficar mal.
Claro que eu
podia continuar este relato horas a fio (a quantas horas nos referiremos quando
usamos a expressão «horas a fio»?). Porque o sonho, mesmo eu tendo dormido (vá
lá, dormitado) apenas uns dez minutos junto dos cestos de cerejas, o sonho
pareceu-me, depois de acordar, ter durado muito, muito mas mesmo muito tempo.
As tais horas a fio capazes de caberem, cada uma delas e todas ao mesmo tempo,
em dez minutos meus de olhos fechados e completamente desligado do mundo. Convém,
no entanto, ter alguma moderação. Não contar toda a vida sonhada do papa-figos
francês. Não vão os
piscos, e os melros, e as arvelas, e as felosas, tudo em bando, aparecer-me à
janela, a bicarem os vidros, não com os lamentos por causa das cerejas mas com
a exigência colectiva de também terem uma vida: cada um com uma vida,
devidamente preenchida com nacionalidade, clube, tipo de croissant preferido e outras coisas que podem no sonho definir o
perfil de qualquer pássaro.
