terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Petite histoire


Vivia bem no alto de um dos sobreiros maiores, a um esvoaçar apenas
da rota do avião que ligava o aeroporto de Faro ao de Orly,
uma vez por outra com escala na Funcheira.
  

Olhava para dois cestos de cerejas. Eu. Era eu que olhava. Tinha mesmo à minha frente a apanha do fim da tarde, depois de subir a dez metros de altura (poderão os ramos das cerejeiras chegar aos dez metros?), ou a oito, eventualmente. Cerejas e mais cerejas, e folhas e mais folhas. Tudo à minha frente. E eu, sem perceber como nem por quê, a recordar os lamentos dos piscos e dos melros, pouco antes, ao darem por mim a encher os cestos. Os lamentos dos piscos, os dos melros e também os de umas quantas arvelas e, se bem percebi, os de meia-dúzia de felosas. E os de um solitário papa-figos francês. Teria entretanto adormecido? Eu… Estaria a dormir junto aos cestos de cerejas? A sonhar? Em vez de ser a pensar…
O papa-figos parecia-me estanho naquele grupo, ou melhor, naquele coro de lamentações, e nem era por ser francês. Mas estava lá. E chegavam-me coisas sobre ele, que na falta de figos maduros costumava empanturrar-se de cerejas, e até de croissants de chocolate se de manhã eu perdesse de vista a mesa da rua com o pequeno-almoço. Devia ser mesmo um sonho. Devia ser eu a dormir e a sonhar junto dos cestos. Um sonho meu. E lá estava o papa-figos francês doido por croissants de chocolate e adepto do Saint Étienne… Ele que vivia bem no alto de um dos sobreiros maiores, a um esvoaçar apenas da rota do avião que ligava o aeroporto de Faro ao de Orly, uma vez por outra com escala na Funcheira. Aos domingos o papa-figos costumava espreitar pelos vidros da janela da sala por causa da Sport TV e dos resumos do championnat. Eu tinha chegado a abrir a janela, mas ele nunca tinha entrado. Dentro do sonho eu sabia disso, lembrava-me disso, muito bem até: ele nunca tinha entrado. Por ser reservado, claro; e, tinha-me sempre parecido, por algum receio da minha colecção de pequenos caretos, principalmente do extraordinário careto de Podence, o meu preferido e também (não é para rimar) o mais aguerrido. O papa-figos francês devia ver em cada careto um pequeno espantalho a raiar o tecnológico, típico produto da revolução digital com uma pitada de tradição, coisa que na serra dos dois dinossauros adormecidos, a de Monchique sobre os algarves, não haveria de ficar mal.
Claro que eu podia continuar este relato horas a fio (a quantas horas nos referiremos quando usamos a expressão «horas a fio»?). Porque o sonho, mesmo eu tendo dormido (vá lá, dormitado) apenas uns dez minutos junto dos cestos de cerejas, o sonho pareceu-me, depois de acordar, ter durado muito, muito mas mesmo muito tempo. As tais horas a fio capazes de caberem, cada uma delas e todas ao mesmo tempo, em dez minutos meus de olhos fechados e completamente desligado do mundo. Convém, no entanto, ter alguma moderação. Não contar toda a vida sonhada do papa-figos francês. Não vão os piscos, e os melros, e as arvelas, e as felosas, tudo em bando, aparecer-me à janela, a bicarem os vidros, não com os lamentos por causa das cerejas mas com a exigência colectiva de também terem uma vida: cada um com uma vida, devidamente preenchida com nacionalidade, clube, tipo de croissant preferido e outras coisas que podem no sonho definir o perfil de qualquer pássaro.