quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A tábua


Natal na serra do Algarve e um regresso ao quarto da minha infância e da minha adolescência. Como envelheci!... A secretária e as estantes dos livros parecem novas, mas são de há tantos anos… O computador não tem praticamente nada que se aproveite, o «escândalo presidencial» é uma moldura feita em 1996 com uma página do «Diário de Notícias» depois da saída da primeira edição do livro do «Presidente». Há ainda a capa com uma viola que um casal de belgas, donos de uma fábrica de instrumentos musicais, me enviaram por causa de em Fátima me verem dar o meu lugar sentado a uma senhora, eu ainda criança. E os livros, principalmente economia e gestão, livros de nomes esquisitos como Samuelson, Kotler e o diabo a quatro. E os dossiers com os cadernos de apontamentos. E a velha tábua sobre a qual eu escrevia, forrada com o Sporting da primeira metade da década de 1980. Lá está uma imagem do inesquecível título de 1982 à mistura com outras de anos a seguir em que a guarda-redes campeão não aparece, o fantástico húngaro Meszaros, mas aparece um outro húngaro, o gigante Katzirz, cujo primeiro nome era, e se calhar ainda é, Bela. Também aparece Vítor Damas, numa corajosa defesa no Estádio das Antas, a atirar-se aos pés de um avançado do Porto, provavelmente Fernando Gomes, que na altura utilizava com alguma frequência a palavra filosofia. E a parte vermelha da tábua, também do Sporting, ou quase, o Sporting roubado pela selecção nacional, uma arrancada de Jordão no Portugal – União Soviética de 1983 que nos qualificou para o Europeu de França, precisamente com um golo dele, de penalty arranjado pelo minúsculo e tão grandioso Chalana. Como envelheci!... Ou envelhecemos… Eu e a tábua. Era sobre ela que eu escrevia as minhas histórias na adolescência, e depois já no final dessa mesma adolescência. Muitas das do «Presidente» foi em cima dela que as escrevi, a tábua sobre os joelhos e eu a escrever as aventuras do Jaiminho Corvo, da Costureira de Santa Clara, do Raposo do Besteiro, do Chico Domingues, do homem que fazia tremores de terra, do professor que começava a crescer de repente, do bicho do moinho, da santa que abriu um bordel e que depois voou com ele pelo céu até se tornar um ponto no infinito e desvanecer-se, um milagre acontecido mesmo a seguir à visita do presidente da república, no que foi o tal «escândalo presidencial» de que falou o «Diário de Notícias» numa página inteira que deve ter dado uma forte ajuda para que a primeira edição do livro esgotasse num mês. Tanto tempo…. Uma vida… Foi o que me pareceu agora. Dormir naquele quarto primeiro de criança e depois de jovem, com uma arrumação esquisita que o tempo foi arranjando, eu, agora, eu também com uma arrumação esquisita para mim, a que o tempo me foi arranjando. Ainda pensei em trazer a tábua da escrita comigo, para escrever novamente sobre ela, mas ao pegar-lhe notei que ameaçava desfazer-se. Até o indomável Jordão parecia querer despegar-se, ou ser apanhado por um defesa soviético naquela longínqua tarde de domingo no Estádio da Luz. Deixei-a por isso onde estava, numa das prateleiras, com cuidado, para que se vá conservando, para que de vez em quando eu possa olhar para ela como o meu olhar tão mais velho. Ajudou-me com as minhas primeiras histórias, com aquelas do tempo em que eu escrevia verdadeiramente bem e não tinha nem um post-it na minha imaginação a avisar-me «não faças isto», «não digas aquilo», «não vás por ali», «não ponhas tanto cabrão», «evita o recurso ao filho da puta nos diálogos», «vê se pões umas flores», «tenta não matar um político». Agora, a tábua merece tudo o que quiser. Um pouco de tranquilidade, foi o que me pareceu quando lhe peguei. No meu quarto da infância e da juventude. No seu quarto de sempre. Apenas isso.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O pequeno construtor de searas


Houve um tempo em que ele construía searas. Na casa da tia, em Novembro, logo em fins de Novembro. Usava latinhas de conserva, sem o papel à volta com a marca, sem que depois se percebesse que vinham de acondicionar filetes de cavala, ou lulas, ou sardinhas, ou carapaus, ou até bocados de atum. Punha água e trigo nas latinhas anónimas e esperava que as searas crescessem, dia após dia, para que no Natal pudesse tê-las no presépio, os verdes campos de trigo, bem viçosos, já com as latinhas escondidas pelo musgo apanhado nas pedras do cerro por cima da fazenda.
Nunca falhou com uma seara, uma só que fosse. A cada ano dos Natais em que construiu searas para representar no presépio os campos de cultivo, nunca falhou. Punha-as sempre à beira do caminho, do risco de areia que arranjava em cima do musgo desde os ladrilhos da sala até à cabana onde colocava o menino, a mãe e o carpinteiro que estava casado com ela. A cabana da estrela de prata de chocolate, do burro cinzento e da vaca cor-de-laranja com um dos chifres partidos.
Ele usava as figuras que já vinham do tempo da avó. O menino, do mesmo tamanho da mãe, do carpinteiro, do burro e da vaca cor-de-laranja, cinco ou seis ovelhas, um músico de Viena, dois patos e um rei solitário, negro, bem negro, sempre montado num camelo a meio caminho entre os ladrilhos e a cabana, todos do tamanho do menino.
Na igreja da vila, no presépio que o prior mandava fazer todos os anos, havia tantas outras figuras, até um pastor para as ovelhas, como o que depois ele conseguiu comprar na loja onde se entregava o totobola. Um pastor para as ovelhas, de capote amarelo e com um ar tão novo entre as figuras do presépio que ele fazia na casa da tia; foi o pastor que acabou por ser a única novidade em tantos anos no presépio das searas. Mas o presépio da igreja... Nesse havia pontes, todas do tamanho do menino e das ovelhas, e castelos, também do tamanho do menino e das ovelhas, e do carpinteiro e da mãe do menino. E poços, desse tamanho também, e fontes, e camponeses, e os três reis magos, e cães, e cavalos, e carros-de-besta (com as bestas), todos do tamanho do menino. Na igreja da vila.
Todas essas figuras, ou umas parecidas, os poços, os camponeses, os cães, os carros-de-besta, os castelos, uma ponte, pelo menos uma, todas ele desejava ter para colocar no presépio da casa da tia. Mas apenas conseguiu o pastor. O rei negro ficava sozinho a meio do risco de areia que levava à cabana do menino, ano após ano. E era apenas disso que ele tinha vergonha, de ter um viajante de terras longínquas sem os dois companheiros de visita, como no presépio da igreja da vila. E a cada final de ano, quando se aproximava o Natal, quando começava a construir searas, ele pensava no que fazer para que os outros dois reis aparecessem. Mas nunca apareceram, nunca, em nenhuma das vezes em que foi buscar a velha caixa de sapatos com as figuras embrulhadas em papel vegetal.
Um dia, na cidade, viu uns presépios diferentes, apenas com o menino, a mãe e o carpinteiro que era o marido da mãe do menino. Nem a cabana aparecia nesses presépios, e do burro e da vaca nem sinal. Só uma caminha de palha para o menino. Nem a estrela que indicava a direcção do menino. Talvez por isso não aparecesse ninguém de visita, nem ovelhas, nesses presépios, talvez por falta da estrela. Foi o que ele pensou, mas aí já não era uma criança; e tinha havia muito tempo deixado de construir searas.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Livro

(…)
Tenho a noite tão escura à minha volta. Poderia ir para qualquer lado que seria igual. Agora. Lá adiante estão dois olhos vermelhos. Sei do que são. Haveria por certo alguém capaz de pensar no diabo. Mas não... Sei que lá adiante está um bicho pequeno, e ouvi dizer que é um pequeno diabo para morder. Mas admito que pode ser vencido a pontapé.
Tudo tão diferente do princípio da tarde. Lembro-me de ter visto um avião a cruzar o céu azul sobre o montado, deixando uma linha branca perfeita atrás. Tão direita. Estava a ver os gatos a comerem e de repente reparei naquele caminho perfeito no céu. Imaginei-me por lá a andar. Uma ilusão. Agora vou andando neste chão tão escuro. Como tudo à minha volta. Preferia andar no céu azul. Mas não. É aqui.
Os olhos vermelhos aproximam-se sorrateiramente. Já nem me lembrava deles. Vi-os agora de novo. (…)

Pequeno-almoço



domingo, 15 de dezembro de 2013

Blue eyes


Uma ferida curada no hospital veterinário da Universidade de Évora, com a obrigação de usar um colar e de não se meter em aventuras pelo montado aqui à volta. Mas acabou por meter-se. O Punkinho (traduzindo, punk pequenino) escapou-se um domingo ao fim da tarde e voltou passados três dias já sem colar, com mais feridas e o olho esquerdo transformado nem consigo dizer bem em quê. Uma luta com uma gineta, foi o que me disseram no hospital da universidade, a julgar pelas marcas das unhas à volta do olho e também lá dentro. O facto de ter tido o colar tê-lo-á impedido de defender-se como estava habituado a fazer, como fazia o pai antes de morrer, como ainda hoje faz a mãe, como faz também a irmã. Uma médica pessimista disse que o mais certo seria ele perder o olho, mas uma colega optimista disse que talvez não. Tratamentos e mais tratamentos. Quase dois meses. Pingos e pomadas pelo olho esquerdo adentro. Umas infusões manhosas pelas goelas abaixo. Um dia atrás do outro. Alguns dos pingos de quatro em quatro horas. Em dias de ida a Lisboa eu ia deixá-lo ao hospital, para não se perder o ritmo do tratamento. Uma coisa de espantar, o hospital veterinário da universidade. Sempre uma médica e mais uns seis ou sete alunos a ajudarem, uns a parecerem mais adiantados do que outros a julgar pelas fardas diferentes. Uns, quer dizer, umas, porque é quase só alunas. Espera-nos por certo um país de veterinárias... E mais uma coisa, as aulas, o Punkinho chegava a ir a aulas, do «senhor professor», como eu ouvia dizer. Pediam-me e eu deixava. Por causa das patologias, era bom para as aulas práticas, segundo me explicaram. Um dia voltou de uma aula com o pelo da barriga rapado e todo envergonhado. Uns exames internos, para os alunos (quer dizer, as alunas) perceberem. Tudo isto me parecia sempre aquelas séries parvas norte-americanas da moda passadas em hospitais, só que de pessoas. Mas o olho salvou-se. O gato surpreendente voltou a surpreender. Antes tinha estado fora sete anos, até voltar num fim de tarde de Inverno, de pêlo quase preto. Não sei por que países ou continentes terá andado. Mas era ele. Reconheci-o logo. O Punkinho, o pequeno punk que de punk pouco tem mas ficou com o nome assim porque foi o que lhe calhou em sorte. Agora está preparado para novos problemas. Vê tão bem do olho esquerdo como do direito. O olho esquerdo continua tão bonito como o direito. Os olhos azuis, «blue eyes», como um tipo espanhol que estudou comigo na Alemanha e inacreditavelmente dominava o inglês costumava cantar por lá às raparigas, até quando era atendido por uma numa loja. O Punkinho vai de certeza voltar ao montado. Sem colar. E tem de se defender, nem que lhe apareça um javali.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O Presidente em Lisboa

Lançamento da terceira edição de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (edição Just Media) no próximo dia 26 de Novembro, pelas 19H30, em Lisboa (Biblioteca Municipal Palácio Galveias, ao Campo Pequeno). Apresentação do jornalista da TSF Fernando Alves.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Uma apresentação


Texto de suporte à apresentação de José Alberto Quaresma (na foto), em Monchique (15.09.2013), do livro de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» (terceira edição, Just Media)

É bizarro que um mancebo de 18 ou 19 anos tenha andado a evitar atarantar-se no ISCTE, como estudante em Gestão. Acabou o curso e foi mais além. Mas por largos e esconsos momentos, quando ainda a barba lhe germinava preguiçosa, escapava-se para escrevinhar, embirrar com palavras, torcê-las até aos sorrisos, gargalhadas, perolazinhas de cloreto de sódio no canto do olho. Coisa que, em solitário, o entretinha há muito. Ninguém desconfiava.
Mergulhado nos gélidos salões do marketing e dos mercados financeiros, António Manuel estava destinado apenas a cumprir o que o apelido lhe impunha – Venda! Só que, sem pedir licença, resolve franquear o mui reservado couto de caça da grande literatura.
Trazia nas suas magras mãos uma pequena obra vestibular, a colectânea de contos «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade». Publicou-a dez anos depois de escrita. Afoiteza? Nada disso. Talento apenas, embora dele não estivesse seguro.
A crítica foi apanhada descalça. Resignou-se. Aplaudiu muito. Não lhe fazia favores. O elegante latagão merecia-o. Tínhamos escritor. E dos grandes. Os prémios foram gotejando de santuários jurados e com inteira justiça.
O rapaz, para gáudio de leitores pasmados, continuou engalinhando com o verbo. Cresceu mais e fez crescer páginas e páginas que já somam uma dezena de títulos de ficção. Onde arranja cabedal para tão elevada qualidade? Não é na bolsa de valores. Sai-lhe apenas do corpinho, das noites mal dormidas e da cabecinha luminosa.
«Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade», a mando de António Manuel Venda, ficou encalhado no título do livro que esconde as outras deliciosas narrativas do seu conteúdo. Esgotado e reesgotado, aparece agora, para nosso contento, em nova edição. A sugestiva compilação de textos deste contador de histórias profundamente original é de raro engenho, discurso conciso, irreprimível sentido de humor, imaginação transbordante nas esquinas dos vocábulos.
Venda tem mão pessoalíssima, na qual as suas bruxas do Selão tatuaram segredos que faz deslizar airosamente pelo real mágico e o surreal, através de uma linguagem popular despojada, infinitamente colorida e de grande leveza e densidade literárias. Desalinha inverosímeis e absurdas personagens pela sua serra de Monchique, pelo barrocal e litoral algarvios. Surpreende-nos com maciças e assombrosas situações que, de tão irreais, receamos que nos entrem pela casa adentro.
Venda consegue descrever as coisas mais banais, como a borbulha de um nascer do sol ou uma paisagem bocejante, com uma linguagem plástica digna dos mestres do impressionismo, da pintura ou música, sem tirar os pés da terra, a sua terra, ganhando a lonjura que lhe permite ver melhor.
Entra no universo mental da gente com uma argúcia e um entendimento sub-reptício singulares. Em três ou quatro palavras despe até à nudez indecorosa a mais composta das personagens, que são, lá bem no fundo, gente em quem encalhamos todos os dias. Não hesita em utilizar o vernáculo mais popular – de «filho da Puta» ou «ó dos cabrões» do nauseante e extinto Zé das Cabras a resmungar quando o picavam – para nos integrar atónitos nessa mole de que somos bem e mal feitos.
Venda é já parceiro dos grandes escritores nascidos no Algarve e o universo ficcional deste criador de enormes recursos estilísticos, sendo em grande parte regional, não deixa de atingir a universalidade. Ninguém como ele, a não ser Manuel Teixeira Gomes, conseguiu aproximar-se de forma tão sensível do Algarve e dos seus infinitos entalhes. O escritor portimonense e antigo presidente da República, há cem anos, sobretudo do seu litoral; este seu colega monchiquense, muito mais jovem, da sua serra hoje mesmo. É júbilo grande voltar a pousar olhos nesta prosa encantatória e na dos livros posteriores. E ganhar impaciências pueris por novos livros seus, a rescender à pasta de eucalipto com que a sua serra foi travestida e à tinta fresca que mancha fértil o branco das suas páginas.
Vou-me embora que se faz tarde. Sua excelência o senhor «Presidente da República» está à minha espera, uma vez mais. E não é nada protocolar fazê-lo esperar…

domingo, 27 de outubro de 2013

Na volta um convite

Realmente isto deve andar mesmo para estourar. Numa destas noites, de regresso de Lisboa a conduzir a 60 km à hora e por vezes a menos, por causa do dilúvio que até metia trovoada, de repente uma chamada para o telemóvel. Um conhecido, quase amigo, poderia dizer. Influente, mesmo influente. Ainda agora não sei se estava a gozar comigo. Queria saber se eu consideraria a hipótese de ser secretário de estado. Nem percebi bem de quê. Perguntei-lhe se estava a gozar comigo. Não respondeu. O silêncio prolongou-se e eu acabei por dizer-lhe que nem roupa tinha para isso, cada dia com um fato, e eu acho que não tenho fatos que cheguem. Aliás, sei que não tenho fatos que cheguem. O silêncio continuou do outro lado da linha. Perguntei novamente se estava a gozar. Ele finalmente voltou a falar. «Mudando de assunto», disse, «como é que vão as coisas consigo?». Pensei em responder-lhe que mais ou menos, que tenho poucos fatos e mais umas merdas. E que também não preciso de muitos fatos, aliás. Mas não, disse-lhe apenas que as coisas vão mais ou menos. «Almoçamos um dia?» perguntou-me. Disse-lhe que sim, que podia ser. E ele despediu-se. Despedi-me também, com a sensação de que ele ficou a pensar que esta noite não me convencia de forma nenhuma. Ou então que não tinha conseguido verdadeiramente gozar comigo. Mas talvez não estivesse a gozar. Se fosse um amigo mesmo amigo, ainda vá que não vá. Agora apenas um conhecido, quase amigo... Na volta era a sério e isto está mesmo a dar as últimas. Talvez acabemos por almoçar. E talvez nessa altura o convite já seja para ministro. De uma merda qualquer, uma pessoa nunca sabe. Se acontecer, repito-lhe aquilo dos fatos, que não tenho fatos suficientes. E que ainda poderia ser apanhado nalguma conferência de imprensa a dizer asneiras piores do que as do Sócrates agora nas entrevistas. Isto deve andar mesmo para estourar.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Vai para 116 anos


Em 1897 o rei de Portugal, na falta de presidente, visitou Monchique, desconhece-se se por mera curiosidade ou não. O irmão mais velho do meu avô paterno foi recebê-lo, como se pode ler aqui.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

À noite, vigilante


Não sei por onde anda de dia, mas imagino que seja por entre as ervas e as flores mais frescas que consegue apanhar por aqui – onde a rega faça mais efeito, por exemplo. Mas à noite já se tornou um clássico. A pequena rela. Fica no alpendre do forno, de sentinela nem sei a quê, sempre em cima do mesmo interruptor. No escuro, quando vou com a mão esquerda para ligar as luzes, levado pelo hábito, sem me preocupar com um centímetro mais acima ou mais abaixo, por vezes toco-lhe. E aí é que me lembro dela, lembro-me de que à noite está sempre por lá, vigilante, sem uma empresa que lhe pague nem que seja o salário mínimo, sem uma administração pública que a integre num qualquer programa ocupacional do instituto que gere o desemprego o melhor e o mais alto que pode. Toco na rela e lembro-me: a rela, a rela sempre em cima do interruptor, à noite. E ela não salta de susto. Deve pensar que é uma pequena festa que lhe faço. Como depois de acender as luzes me vê fazer aos cães e aos gatos. De relance. Percebo que olha de relance. Está vigilante no seu pequeno espaço que mal dá para se aconchegar. Olha em frente. Não se distrai. Profissional. Cumprindo um dever que não sei qual é. Merecia mesmo estar numa empresa. Ou na administração pública. Talvez na administração pública. Talvez mais aí. Pela calma, sobretudo pela calma.

Chegada


Acabados de chegar à editora, exemplares da terceira edição de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade».

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Um começo

Uma das minhas filhas disse-me hoje que quando for grande quer ser escritora. Nunca lhe tinha ouvido falar dessa profissão (?), mas sim de outras que me tinham deixado mais descansado. De qualquer maneira, não a contrariei, comentei apenas que teria de pensar em muitas histórias para contar aos leitores. Mas para mim, só para mim, baixinho, abafado pela música do rádio do carro e pelas conversas dos irmãos, disse que se isso sucedesse esperava que fosse mil vezes melhor do que eu, ou se calhar dez mil. Já seria um começo de carreira.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

A minha terra


Aqui. «A Serra Azulada de Manuel do Nascimento»; «Terra Ruim, Nome de Blogue»; «A Casa do Medronho em Marmelete»; «Um Caçador na Serra de Monchique».

A presidente da assembleia foi para a night


Os locais

Os 16 contos de «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade» e os locais onde decorrem (todos no final da década de 1980, quando foram escritos; excepto o primeiro e o último):
- A bruxa do Bairro Alto de São Roque (Lisboa, 1706)
- Quando o presidente da república visitou Monchique por mera curiosidade (Monchique)
- Um caso bicudo (Santiago de Compostela e Silves)
- O homem dos tremores de terra (Alferce)
- A história do Manel Frade (São Marcos da Serra)
- O corvo que ia fazer a praça a Portimão (Praia da Rocha)
- A costureira, o raposo, o pisco e o plátano (Santa Clara-a-Velha)
- Osga (Navete, Monchique)
- A louca paixão do Chico Domingues (Marmelete)
- Um professor cada vez maior (Lisboa)
- Quem abusou da espanhola Javiera? (Caldas de Monchique)
- O inferno (algures no concelho de Monchique)
- Dia de festa nos Casais (Casais, Monchique)
- À caça do bicho do moinho (Foz do Vale, Alferce)
- Crónica de Badajoz (Monchique e Badajoz)
- As aventuras de ZK16 (numa outra galáxia, num tempo futuro)

sábado, 13 de julho de 2013

A raposa de olhos de luz


A raposa que gosta da comida dos gatos. Os olhos de luz é defeito do fotógrafo. A pressa dá nisto.
(clicar na imagem para aumentar)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Convidado: António Souto


Notas e desnotas
Depois de tanto frio e de tanta chuva veio o tanto calor. Pelo meio tem vindo a tanta contestação, a tanta convulsão e a tanta demissão. Quer dizer, demissão de obrigações, que demissão de funções nem tanta assim, quase só macanjice, tranquibérnia rasteira facilmente revogável. O tanto calor a afoguear, a atazanar, a dar cabo da tensão a tanta gente… e, contudo, há o apelo do mar, a praia do nosso comedimento, a temperança do sal. Antes de ir a banhos, o rescaldo, ao acaso, em breves notas.
Nota um. O reconhecimento do «testemunho da viagem pioneira à Índia, um dos momentos-chave que mudou o rumo da história do mundo». A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) tomou finalmente a decisão de inscrever o diário da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia no Registo da Memória do Mundo. Uma iniciativa que perpetua simbolicamente um dos acontecimentos mais marcantes de toda a história da humanidade. Com as instabilidades climatérica e governativa da nossa rotina, ninguém deu por isso. A nossa diplomacia perdeu-se com Edward Snowden, com Evo Morales e com D. Manuel Clemente, e nem aos Jerónimos chegou o eco do Velho do Restelo.
Nota dois. Está lido. «Não Deixem Morrer os Sonhos (Carta aberta aos meus netos sobre as angústias deste tempo), seguido de Nome Próprio Portugal». Saiu em Abril e é de José Jorge Letria. O desânimo pessoal e personificado, a história de um homem e de um país, um testemunho para netos e para concidadãos, uma mensagem para todos. Numa linguagem simples e objetiva, exibe-se um tempo presente em quadro de «fulgor baço da terra/ que é Portugal a entristecer», mas, e em simultâneo, como acenou o poeta, abre-se a porta para que a «chama, se ainda não é finda», «A mão do vento pode erguê-la ainda.» Um recado que fica e um grito arremessado contra a desistência. Um avisar discreto ao jeito de Sena, «Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.»…
Desnota. O Dr. Marques Mendes sabe tudo quanto se passa nos bastidores do governo. Sabe mais do que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, muito mais. Adianta-se sempre aos protagonistas na informação sigilosa. Diz, sobretudo, o que os protagonistas estrategicamente não podem ou evitam dizer, tanto a propósito das apreensões da troika como a propósito do Tribunal Constitucional, o maior adversário do governo, que deixou de ser o garante da Lei fundamental para passar a fazer agora parte do arco da oposição. Claro como a água mais clara. Atrasou-se, porém, quanto a esta inesperada golpada presidencial, vá-se lá saber por quê, distraiu-se, a surpresa passou-lhe ao lado, a surpresa antecipou-se ao comentário. Tudo inconstante, tudo a prazo.
Nota idiota. Apesar da crise, ou por mor dela, Alexandra Solnado continua a receber mensagens do céu. Um privilégio de muito poucos, passe a redundância, mas que a autora e curadora espiritual e formadora folga em partilhar com o comum dos mortais em cursos progressivos. O de nível I, com o sugestivo título «Como se conectar com o Céu», em finais de julho, destina-se à comunidade tripeira, povo hospitaleiro e de muita fé tecnológica. Elevação energética, passado kármico, memórias positivas, nível de vibração… são uma pequena amostra do muito que se pode aprender e experienciar. O êxito destes cursos de formação (de nível I a nível V), que aguardam acreditação, assevera-se garantido e deveras proveitoso. Nada que se compare com as mezinhas desabonadas dos Professores Bambo ou Karamba, mestres obscuros.
Última nota. O estado da nação não se debate. Debate-se em espasmos de salvação.
António Souto
Agualva (Sintra), Julho de 2013

sábado, 29 de junho de 2013

À porta


O primeiro pirilampo do Verão, junto à porta da rua, onde se mantém já há alguns dias. Como se lhe coubesse velar pela casa. Noutros tempos, por exemplo os do já esquecido choque tecnológico, talvez se pudesse arriscar que servia para assegurar a ligação à Internet ou para apanhar a televisão por satélite. Agora não, é mesmo como se velasse apenas pela casa, atento a quem possa aparecer.

As vírgulas

Será que a Autoridade Tributária e Aduaneira não tem dinheiro para pagar umas aulas de português ao seu director-geral, a ver se ele passa a usar correctamente as vírgulas? Já agora, na parte do acordo ortográfico o texto traz uma inovação: ora segue o acordo, ora não segue; dá a ideia de que é conforme as linhas.

Exmo.(a) Senhor (a)
XXXX XXXX

Verificámos que exigiu a inserção do seu Número de Identificação Fiscal (NIF) em faturas relativas a aquisições de bens e serviços que efectuou.
Muito obrigado pela sua colaboração.
Como sabe, os comerciantes são sempre obrigados a emitir fatura em todas as transações que efectuam mas, a exigência de inserção do NIF pelos consumidores, garante que essas faturas são conhecidas e controladas pela Autoridade Tributária e Aduaneira (AT).
Esse seu ato simples é muito importante para si e para todos nós, porque, a partir de agora, a AT assegura os procedimentos necessários para que o IVA que pagou nessas faturas seja efetivamente entregue ao Estado e cumpra a sua função.
Ao mesmo tempo, a AT garante que o IVA que pagou nessas faturas não será desviado ilicitamente por quem não cumpre a lei e, impede esses agentes económicos de concorrerem de forma desleal com os que, cumprindo, criam emprego e riqueza.
Aproveito este momento para lhe manifestar a gratidão da AT e relevar a importância do seu papel neste projeto de cidadania que é, o novo regime de faturação, designado por sistema e-fatura.

Com os melhores cumprimentos,

O Diretor-Geral
José António de Azevedo Pereira

Nota: claro que isto das vírgulas pega-se; veja-se, por exemplo, como se escreve no ministério de Pedro Mota Soares, aqui.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Um dia, talvez...



Brinca-se aqui com um escritor. Ou goza-se, nem sei. Mais a sério, o post faz-me pensar que um dia, na minha terra, talvez me façam uma prisão-museu, eventualmente numa dependência da biblioteca. Ou aqui, pelo Alentejo, uma toca-museu no meio dos sobreiros, quem sabe até um núcleo museológico, se a toca tiver muitas ramificações.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Fim


Chegar finalmente ao fim de um livro. Agora sucessivas leituras, para as correcções. Tantas coisas para ajeitar…

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Com a cabeça no céu


Lançamento do mais recente romance do José Eduardo Agualusa, «A Vida no Céu», quinta à noite, em Lisboa (livraria Ler Devagar). Apanhou-me no fecho da edição de uma das revistas da empresa, mas como os PDFs que eu tinha de ver estavam atrasados deu para passar por lá, ainda por cima sem grandes pressas. Comprei o livro à entrada e depois assisti a um canto à apresentação. Mais tarde, quando estava na fila para apanhar um autógrafo, da editora vieram-me dar um papelinho para escrever o meu nome e juntar ao livro; assim facilitava as coisas. Lembrei-me de que nos tempos da editora anterior dele a própria editora (a pessoa), quando eu estava a aproximar-me, tinha-se levantado da cadeira e tinha-me vindo perguntar o nome para apontar numa folha de papel onde já tinha uma série de nomes – dessa vez eu ia para dizer que achava que não era preciso quando o próprio Agualusa se levantou para me cumprimentar e isso acabou por fazê-la regressar à cadeira.
Bom, desta vez disse mesmo que não devia ser preciso. E recusei o papelinho. Continuei na fila, à espera, e a certa altura recebi uma mensagem no telemóvel a informar da situação em que estavam os PDFs. Quando acabei de lê-la, reparei que o projector da imagem do romance do Agualusa me apanhava a cabeça. Eu estava com a cabeça no céu, junto com os balões. Antes de guardar o telemóvel, tirei uma fotografia. Precisamente aquela ali de cima. E depois continuei a olhar para a minha cabeça no céu, era mesmo a minha, pois dava facilmente para notar o corte de cabelo com defeitos. Não pude foi deixar de estranhar que aparecesse a minha cabeça assim tão destacada, mas ao virar-me para trás percebi que isso tinha a ver com o facto de eu ser então a pessoa mais alta da fila. Não que eu me tivesse ido meter numa fila de anões para autógrafos (tal coisa talvez só no lançamento de um livro de Rosa Montero), nada disso, não dei nem com um que fosse. Mas eu era mesmo a pessoa mais alta. Tanto que a minha cabeça, ou antes, a sombra negra da minha cabeça, se destacava no céu da capa do livro onde apareciam os balões.
Estava a aproximar-me da mesa dos autógrafos, embora devagar. Atrás de mim, alguém queixou-se de que aquilo parecia uma repartição pública. E logo uma voz diferente falou da necessidade de meterem mais escritores na mesa a assinar. Ninguém se riu, por isso não deve ter tido graça. Entretanto, o casal à minha frente escrevia os nomes num dos papelinhos, tinham só um livro e o autógrafo era para os dois – o homem preocupava-se com o nome da mulher, que era estrangeiro e tinha de ficar escrito de forma legível para o autor perceber. Lembrei-me de que tinha dito um pouco antes que não precisava de papelinho. Conhecia o Agualusa dos tempos do «DN Jovem», há mais de vinte anos, ele já tinha apresentado um romance meu, eu já tinha num leilão de livros com ele e mais autores presentes vendido um exemplar de «Um Estranho em Goa» por 25 contos (quase mesmo a passarmos para o euro), e ele uma vez, provavelmente por falta de inspiração, tinha-me metido numa crónica. Não ia assim sem mais nem menos esquecer-se do meu nome. Ou de mim. Ainda por cima numa altura em que quase coincidíamos na mesma editora, ele a entrar com este novo romance e eu provavelmente já fora depois do meu último livro. Mas e se se esquecesse? Foi o que pensei. Sempre a olhar para a projecção do meu cabelo cortado com defeitos. E por isso acabei por tirar um dos cartões multibanco da carteira e juntei-o ao livro. Ele podia ver o meu nome no cartão, e em letra de forma, bem diferente dos gatafunhos que eu poderia escrever no papelinho. Quando nos cumprimentámos, ele ficou um bocado espantado ao ver-me com o cartão na mão. Mas não disse nada. Deve ter pensado que eu não estava bem e que não sabia ao certo o que fazia. Até porque depois de assinar o livro perguntou-me se estava tudo bem comigo. Já não me lembro do que lhe respondi.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Um dos ministros bate à porta


António Rosa Mendes (1954-2013)


Uma notícia muito triste. Encontrámo-nos apenas uma vez. Em Faro, numa livraria, numa noite de 24 de Abril. Ouvia-se a certa altura foguetes a rebentarem pela cidade, perto da meia-noite. Tinham marcado uma apresentação de um livro meu para uma noite de festa. O apresentador falava muito e, mais do que isso, cativava as pessoas, daí a sessão estar a prolongar-se. Já se tinha entrado num debate que parecia interminável, com o meu livro entretanto esquecido e a minha presença na mesa quase ignorada – o tema tinha passado a ser o Algarve e os seus problemas. Eu estava a mais, mas lá me ia aguentando. Na assistência tinha reparado numa cara conhecida, não de uma pessoa minha conhecida mas no sentido de ser conhecida por tratar-se de alguém importante. No final do debate, que não sei como foi possível que tivesse terminado, levantou-se discretamente do seu lugar e veio pedir-me um autógrafo. Não lhe perguntei o nome, como em muitos casos tenho de fazer. Mas ele disse na mesma. Na minha cabeça ele é que teria de perguntar-me o nome (pela minha insignificância se nos puséssemos com comparações), apesar de ter um livro meu na mão.

Notícia aqui. Foto: «Jornal do Algarve»

Apanhadas hoje


Só até aos joelhos

Não sei se hoje protestaram com alguém do governo. Desliguei-me das notícias logo desde bem cedo, ainda antes da hora em que essa gente costuma aparecer em conferências, seminários e outras sessões parecidas. Mais à noite hei-de ver, num dos noticiários das nove dos canais por cabo. Provavelmente risos, sorrisos, narizes (de cavacos, perdão, de palhaços), gritos, cartazes, assobios, inclusive um ou outro empurrão e um saco cheio de palavrões. Se fosse eu preferia atirar pedras, pequenas, tipo aquelas da brita mais miúda, e atirá-las baixo, talvez até aos joelhos, ou no máximo até à cintura. Para só magoar um bocado. Mais alto não, e à cabeça nem pensar, independentemente de ser de um careca ou não. Pedras, com a crise, é melhor do que gastar ovos ou tomates, a menos que seja dos que já tenham apodrecido, e aí sim, aí vale pena.
Há um do governo que estudou comigo. Seria, digamos assim, uma excepção, a juntar às mulheres, claro (tirando a dos suópes, que faz quase lembrar um homem). A esse se calhar tinha de lhe ir falar. Perguntar-lhe como é que se meteu nisto. Tinha de ir na defensiva, não por vergonha de ele ter chegado tão alto estando eu cá por baixo no povo mas porque me lembro de que cuspia muitos gafanhotos. Um guarda-chuva talvez me ajudasse, mas agora é Primavera e poderia parecer despropositado (embora esta Primavera seja também ela um pouco despropositada). Mas podia ser que tivesse a sorte de ele estar curado. De já não cuspir quando fala. Caso contrário, enfim, antes pedras, que me atirasse pedras a mim. Das pequenas, das de brita. E até aos joelhos, já se vê. Agora gafanhotos...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Lá fora


Sonhar nos vidros

Bem de noite. Não posso sair de casa porque mesmo em frente da porta, no sítio onde deixo a comida dos gatos, está uma raposa a jantar. Ou antes, a cear, dado o adiantado da hora (uma e treze da manhã). A raposa gosta da comida dos gatos, e não dá muita despesa porque é pouco maior do que um gato. Come como um gato, e é se eu a deixar em paz, se ficar apenas a observá-la, sem fazer um pequeno ruído que seja. Por isso não posso sair de casa. Já sei como é, já experimentei: abro a porta e ela corre o mais que pode em direcção ao montado; desaparece no escuro em menos de nada, como se se tivesse tratado apenas de um sonho meu, sonhado no vidro da porta.
Não sei se é possível sonhar nos vidros. Os sonhos são coisas tão antigas… Não devem dar para isso. Com as novas tecnologias é diferente. Numa entrevista, uma investigadora portuguesa muito conhecida falava das potencialidades que elas nos oferecem, ou podem vir a oferecer. Recomendou um pequeno filme onde algumas dessas potencialidades nos são mostradas, como num sonho. «A Day Made of Glass», é assim que se chama o pequeno filme, um dia feito de vidro. Não tem raposas. Pode-se ver no «YouTube». Parece que estamos a sonhar.

 

domingo, 2 de junho de 2013

Uma das romanzeiras


Um bocadinho de uma história no Alentejo

A caminho de Évora, por uma estrada muito estreita que permite poupar alguns quilómetros ao carro, lembro-me sempre da cidade brasileira de Ouro Preto. É na descida para a aldeia de São Brissos, pouco depois de passar por uma anta transformada em capela e onde em cada visita sempre encontrei um bicho estranho, mistura de vespa comprida e aranha perigosa, dominando uma teia junto à portinhola fechada a sete chaves. Acho até que num pesadelo que uma vez tive com uma aranha gigante era esse ser a caminho de assustador que entrava a fazer de artista principal. O ser da capela-anta, com as suas cores, o amarelo e o preto, no pesadelo apenas imaginadas, pensadas depois de acordar, porque nos pesadelos o normal é aparecer-me tudo a preto e branco, como acontecia na televisão quando ainda por cá havia a ditadura.
Há já uns tempos que não vou ver a aranha. Acho que depois do pesadelo nunca mais fui. O normal é passar pela estrada a uns cinquenta metros e depois de uma curva acelerar pela descida até São Brissos, e aí aparece-me a imagem de Ouro Preto, embora ao mesmo tempo pense nas proporções tão diferentes de cada um dos lugares. É a igreja enorme a dominar as poucas casas junto ao cemitério, no meio de todo aquele campo, que me traz a lembrança de Ouro Preto. E os montes, que por ali enganam a planície que se avista olhando para a direita, para o lado de onde ao longe dá para adivinhar o casario altaneiro de Alcáçovas.
São Brissos fica pouco antes de um enorme eucaliptal, que imagino de cada vez que o atravesso como sendo o maior de todo o Alentejo, mesmo que isso possa não ser verdade. A estrada estreita corta-o ao meio, serpenteando por uns poucos quilómetros até uma aldeia bem maior do que São Brissos, a de Valverde, junto da qual existe um pólo da Universidade de Évora. As lombas colocadas propositadamente na rua principal fazem-me passar por lá a dez ou vinte à hora, com o motor do carro uma vez por outra a ameaçar ir-se abaixo. Talvez por isso tenha logo na primeira passagem reparado num guerreiro que conheço muito bem desde criança (…)