quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A tábua


Natal na serra do Algarve e um regresso ao quarto da minha infância e da minha adolescência. Como envelheci!... A secretária e as estantes dos livros parecem novas, mas são de há tantos anos… O computador não tem praticamente nada que se aproveite, o «escândalo presidencial» é uma moldura feita em 1996 com uma página do «Diário de Notícias» depois da saída da primeira edição do livro do «Presidente». Há ainda a capa com uma viola que um casal de belgas, donos de uma fábrica de instrumentos musicais, me enviaram por causa de em Fátima me verem dar o meu lugar sentado a uma senhora, eu ainda criança. E os livros, principalmente economia e gestão, livros de nomes esquisitos como Samuelson, Kotler e o diabo a quatro. E os dossiers com os cadernos de apontamentos. E a velha tábua sobre a qual eu escrevia, forrada com o Sporting da primeira metade da década de 1980. Lá está uma imagem do inesquecível título de 1982 à mistura com outras de anos a seguir em que a guarda-redes campeão não aparece, o fantástico húngaro Meszaros, mas aparece um outro húngaro, o gigante Katzirz, cujo primeiro nome era, e se calhar ainda é, Bela. Também aparece Vítor Damas, numa corajosa defesa no Estádio das Antas, a atirar-se aos pés de um avançado do Porto, provavelmente Fernando Gomes, que na altura utilizava com alguma frequência a palavra filosofia. E a parte vermelha da tábua, também do Sporting, ou quase, o Sporting roubado pela selecção nacional, uma arrancada de Jordão no Portugal – União Soviética de 1983 que nos qualificou para o Europeu de França, precisamente com um golo dele, de penalty arranjado pelo minúsculo e tão grandioso Chalana. Como envelheci!... Ou envelhecemos… Eu e a tábua. Era sobre ela que eu escrevia as minhas histórias na adolescência, e depois já no final dessa mesma adolescência. Muitas das do «Presidente» foi em cima dela que as escrevi, a tábua sobre os joelhos e eu a escrever as aventuras do Jaiminho Corvo, da Costureira de Santa Clara, do Raposo do Besteiro, do Chico Domingues, do homem que fazia tremores de terra, do professor que começava a crescer de repente, do bicho do moinho, da santa que abriu um bordel e que depois voou com ele pelo céu até se tornar um ponto no infinito e desvanecer-se, um milagre acontecido mesmo a seguir à visita do presidente da república, no que foi o tal «escândalo presidencial» de que falou o «Diário de Notícias» numa página inteira que deve ter dado uma forte ajuda para que a primeira edição do livro esgotasse num mês. Tanto tempo…. Uma vida… Foi o que me pareceu agora. Dormir naquele quarto primeiro de criança e depois de jovem, com uma arrumação esquisita que o tempo foi arranjando, eu, agora, eu também com uma arrumação esquisita para mim, a que o tempo me foi arranjando. Ainda pensei em trazer a tábua da escrita comigo, para escrever novamente sobre ela, mas ao pegar-lhe notei que ameaçava desfazer-se. Até o indomável Jordão parecia querer despegar-se, ou ser apanhado por um defesa soviético naquela longínqua tarde de domingo no Estádio da Luz. Deixei-a por isso onde estava, numa das prateleiras, com cuidado, para que se vá conservando, para que de vez em quando eu possa olhar para ela como o meu olhar tão mais velho. Ajudou-me com as minhas primeiras histórias, com aquelas do tempo em que eu escrevia verdadeiramente bem e não tinha nem um post-it na minha imaginação a avisar-me «não faças isto», «não digas aquilo», «não vás por ali», «não ponhas tanto cabrão», «evita o recurso ao filho da puta nos diálogos», «vê se pões umas flores», «tenta não matar um político». Agora, a tábua merece tudo o que quiser. Um pouco de tranquilidade, foi o que me pareceu quando lhe peguei. No meu quarto da infância e da juventude. No seu quarto de sempre. Apenas isso.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O pequeno construtor de searas


Houve um tempo em que ele construía searas. Na casa da tia, em Novembro, logo em fins de Novembro. Usava latinhas de conserva, sem o papel à volta com a marca, sem que depois se percebesse que vinham de acondicionar filetes de cavala, ou lulas, ou sardinhas, ou carapaus, ou até bocados de atum. Punha água e trigo nas latinhas anónimas e esperava que as searas crescessem, dia após dia, para que no Natal pudesse tê-las no presépio, os verdes campos de trigo, bem viçosos, já com as latinhas escondidas pelo musgo apanhado nas pedras do cerro por cima da fazenda.
Nunca falhou com uma seara, uma só que fosse. A cada ano dos Natais em que construiu searas para representar no presépio os campos de cultivo, nunca falhou. Punha-as sempre à beira do caminho, do risco de areia que arranjava em cima do musgo desde os ladrilhos da sala até à cabana onde colocava o menino, a mãe e o carpinteiro que estava casado com ela. A cabana da estrela de prata de chocolate, do burro cinzento e da vaca cor-de-laranja com um dos chifres partidos.
Ele usava as figuras que já vinham do tempo da avó. O menino, do mesmo tamanho da mãe, do carpinteiro, do burro e da vaca cor-de-laranja, cinco ou seis ovelhas, um músico de Viena, dois patos e um rei solitário, negro, bem negro, sempre montado num camelo a meio caminho entre os ladrilhos e a cabana, todos do tamanho do menino.
Na igreja da vila, no presépio que o prior mandava fazer todos os anos, havia tantas outras figuras, até um pastor para as ovelhas, como o que depois ele conseguiu comprar na loja onde se entregava o totobola. Um pastor para as ovelhas, de capote amarelo e com um ar tão novo entre as figuras do presépio que ele fazia na casa da tia; foi o pastor que acabou por ser a única novidade em tantos anos no presépio das searas. Mas o presépio da igreja... Nesse havia pontes, todas do tamanho do menino e das ovelhas, e castelos, também do tamanho do menino e das ovelhas, e do carpinteiro e da mãe do menino. E poços, desse tamanho também, e fontes, e camponeses, e os três reis magos, e cães, e cavalos, e carros-de-besta (com as bestas), todos do tamanho do menino. Na igreja da vila.
Todas essas figuras, ou umas parecidas, os poços, os camponeses, os cães, os carros-de-besta, os castelos, uma ponte, pelo menos uma, todas ele desejava ter para colocar no presépio da casa da tia. Mas apenas conseguiu o pastor. O rei negro ficava sozinho a meio do risco de areia que levava à cabana do menino, ano após ano. E era apenas disso que ele tinha vergonha, de ter um viajante de terras longínquas sem os dois companheiros de visita, como no presépio da igreja da vila. E a cada final de ano, quando se aproximava o Natal, quando começava a construir searas, ele pensava no que fazer para que os outros dois reis aparecessem. Mas nunca apareceram, nunca, em nenhuma das vezes em que foi buscar a velha caixa de sapatos com as figuras embrulhadas em papel vegetal.
Um dia, na cidade, viu uns presépios diferentes, apenas com o menino, a mãe e o carpinteiro que era o marido da mãe do menino. Nem a cabana aparecia nesses presépios, e do burro e da vaca nem sinal. Só uma caminha de palha para o menino. Nem a estrela que indicava a direcção do menino. Talvez por isso não aparecesse ninguém de visita, nem ovelhas, nesses presépios, talvez por falta da estrela. Foi o que ele pensou, mas aí já não era uma criança; e tinha havia muito tempo deixado de construir searas.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Livro

(…)
Tenho a noite tão escura à minha volta. Poderia ir para qualquer lado que seria igual. Agora. Lá adiante estão dois olhos vermelhos. Sei do que são. Haveria por certo alguém capaz de pensar no diabo. Mas não... Sei que lá adiante está um bicho pequeno, e ouvi dizer que é um pequeno diabo para morder. Mas admito que pode ser vencido a pontapé.
Tudo tão diferente do princípio da tarde. Lembro-me de ter visto um avião a cruzar o céu azul sobre o montado, deixando uma linha branca perfeita atrás. Tão direita. Estava a ver os gatos a comerem e de repente reparei naquele caminho perfeito no céu. Imaginei-me por lá a andar. Uma ilusão. Agora vou andando neste chão tão escuro. Como tudo à minha volta. Preferia andar no céu azul. Mas não. É aqui.
Os olhos vermelhos aproximam-se sorrateiramente. Já nem me lembrava deles. Vi-os agora de novo. (…)

Pequeno-almoço



domingo, 15 de dezembro de 2013

Blue eyes


Uma ferida curada no hospital veterinário da Universidade de Évora, com a obrigação de usar um colar e de não se meter em aventuras pelo montado aqui à volta. Mas acabou por meter-se. O Punkinho (traduzindo, punk pequenino) escapou-se um domingo ao fim da tarde e voltou passados três dias já sem colar, com mais feridas e o olho esquerdo transformado nem consigo dizer bem em quê. Uma luta com uma gineta, foi o que me disseram no hospital da universidade, a julgar pelas marcas das unhas à volta do olho e também lá dentro. O facto de ter tido o colar tê-lo-á impedido de defender-se como estava habituado a fazer, como fazia o pai antes de morrer, como ainda hoje faz a mãe, como faz também a irmã. Uma médica pessimista disse que o mais certo seria ele perder o olho, mas uma colega optimista disse que talvez não. Tratamentos e mais tratamentos. Quase dois meses. Pingos e pomadas pelo olho esquerdo adentro. Umas infusões manhosas pelas goelas abaixo. Um dia atrás do outro. Alguns dos pingos de quatro em quatro horas. Em dias de ida a Lisboa eu ia deixá-lo ao hospital, para não se perder o ritmo do tratamento. Uma coisa de espantar, o hospital veterinário da universidade. Sempre uma médica e mais uns seis ou sete alunos a ajudarem, uns a parecerem mais adiantados do que outros a julgar pelas fardas diferentes. Uns, quer dizer, umas, porque é quase só alunas. Espera-nos por certo um país de veterinárias... E mais uma coisa, as aulas, o Punkinho chegava a ir a aulas, do «senhor professor», como eu ouvia dizer. Pediam-me e eu deixava. Por causa das patologias, era bom para as aulas práticas, segundo me explicaram. Um dia voltou de uma aula com o pelo da barriga rapado e todo envergonhado. Uns exames internos, para os alunos (quer dizer, as alunas) perceberem. Tudo isto me parecia sempre aquelas séries parvas norte-americanas da moda passadas em hospitais, só que de pessoas. Mas o olho salvou-se. O gato surpreendente voltou a surpreender. Antes tinha estado fora sete anos, até voltar num fim de tarde de Inverno, de pêlo quase preto. Não sei por que países ou continentes terá andado. Mas era ele. Reconheci-o logo. O Punkinho, o pequeno punk que de punk pouco tem mas ficou com o nome assim porque foi o que lhe calhou em sorte. Agora está preparado para novos problemas. Vê tão bem do olho esquerdo como do direito. O olho esquerdo continua tão bonito como o direito. Os olhos azuis, «blue eyes», como um tipo espanhol que estudou comigo na Alemanha e inacreditavelmente dominava o inglês costumava cantar por lá às raparigas, até quando era atendido por uma numa loja. O Punkinho vai de certeza voltar ao montado. Sem colar. E tem de se defender, nem que lhe apareça um javali.